Sábado, 10 hrs da madrugada. Estico o braço na tentativa de enxergar com as mãos aquilo que o olho ainda entreaberto não permite.
Aperto o botão maior do celular, sem nem me dar ao luxo de olhar quem era o responsável por me tirar o sono sagrado:
- Tonobohn! Vem já pra cá rapaz! Hoje é dia de por a mão na massa!
Um banho para tentar acordar.
Saquei da gaveta minha bermuda mais velha e aquela camiseta que você usa de 5 em 5 anos para pintar a casa.
Na sapateira, no canto inferior direito, escondida, está a bota Sete Léguas, usada pela última vez na Sexta série, nas aulas de agricultura do professor Paulo para colher alface e fazer monda.
Mais uma vez o celular:
- Tô aqui embaixo!
Ufa. Carona.
Seguimos para a empreitada.
Chegando lá, mãos envoltas por luvas segurando a enchada, com a nobreza de quem desembainha uma espada de lorde antes do começo de uma batalha.
Tudo começou com o projeto de arborização da Dona Neusa, mãe do Rubens.
As ruas vizinhas do bairro precisavam respirar.
O projeto foi enviado à prefeitura e aprovado. Uma equipe da prefeitura nos revelou estarem muito contentes com a iniciativa, pois eles recebem em média 30 chamados por dia para retirada de árvore, mas raramente algum para o plantio.
Ganhamos 95 mudas de diferentes tipos de árvores e mais o favor da prefeitura de quebrar as calçadas. O resto era por nossa conta.
Dona Neusa fez uma grande movimentação. Tocou de campainha em campainha no bairro, convocando para cada morador que seria beneficado para ajudar no movimento. Passou em escolas, apelando aos alunos que fossem ajudar.
No Sábado, data marcada, haviam mais ou menos … 0 pessoas ajudando.
Isso mesmo. Nenhum vizinho se prontificou. Apenas alguns biólogos que ajudaram no projeto, Dona Neusa, Rubens, eu e mais dois amigos, Mogli (vulgo Vinicius) e Toiço (vulgo Henrique).
Com o tempo, alguns meninos e meninas ajudaram. Apesar de não passarem todo o tempo conosco, foram de grande ajuda.
Plantar uma árvore exige muito trabalho, tempo e principalmente, esforço físico.
Primeiramente, cavamos um buraco de 50cm³ (50cmx50cmx50cm) no muque. Enchadas e bíceps são responsáveis por esse processo cansativo e lento. Depois, misturamos a terra retirada com cobertura morta e um pouco de adubo. Colocamos a muda, e preenchemos o buraco. Uma primeira camada com a terra misturada, depois outra camada de terra vermelha pura, para isolar a
raiz. Por fim, cobrimos o resto com mais terra mista e um pouco mais de adubo por cima.
Não acaba aí. Depois começa a construção do gradil, que ficará envolta da planta com o objetivo de servir de guia para que o tronco possa se desenvolver reto. O gradil também ter o objetivo de evitar que vandalismo, bolas perdidas e acidentes possam quebrar o tronco.
Muitas marteladas, marretadas e pregos entortados depois, o trabalho está pronto. De 1 árvore. Agora só faltam 94.
Mas Dona Maria estava lá para levantar um pouco o astral. Nascida em “1900 e Hebe Camargo”, Dona Maria saiu a rua e perguntou o que estava acontecendo. Depois de saber do projeto do plantio, correu para dentro de casa e voltou com um jarra de água e alguns copos. Disse até que se encarregaria de regar as plantas sempre, até elas estarem grandes o suficiente para se sustentarem. Depois de matar nossa sede, disse que deixaria a porta da casa aberta para que entrássemos caso quiséssemos algo.
O mundo ainda tem salvação.
Plantando agora perto de uma quermesse que ainda estava sendo montada, um senhor se aproximou curioso:
- Opa! Tudo bom com o Senhor? Estamos plantando umas árvores aqui! Ajuda é bem vinda!
Com toda essa simpatia e carisma, antes de completar a frase o senhor, que infelizmente não lembro o nome, já estava com uma enchada na mão, e chamando mais dois amigos para ajudarem:
- Pára de montar essa barraca! Vem aqui ajudar os meninos, rapaz! - gritou para o outro.
Pronto. O serviço, agora com mão-de-obra quase duplicada, ficou muito mais produtivo.
Noventa e cinco árvores depois, agradecemos à todos que cooperaram e ajudaram a tornar aquele pedaço de chão em Santo André um pouco mais verde.
Daqui alguns anos poderemos colher os frutos do nosso trabalho, literalmente.
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Pare de reclamar e aja. Pois todos querem salvar o mundo, mas ninguém quer lavar a louça da mamãe.
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junho 21st, 2007 at 12:59 am
Adorei a matéria, querido irmão. De verdade.
Mas agora que você já fez sua parte na salvação do mundo, corre na cozinha que ficou uma loucinha da mamãe pra você lavar, hauhuahauhauha
Beijocas
julho 8th, 2007 at 10:20 pm
“eles recebem em média 30 chamados por dia para retirada de árvore, mas raramente algum para o plantio.”
Isso que é crime ambiental, não? A televisão bombando todo dia sobre aquecimento global, desmatamento, caos ecológico e o povo ligando pra prefeitura arrancar árvore, aposto que a maioria é porque as folhas “sujam” a calçada delas, isso é super comum, obtusidade mesmo.
Parabéns pela iniciativa! Plantar árvore é um barato, e mais do que nunca, uma necessidade…pena que poucos aderiram, mas é assim, pra fazer coisas boas tem poucos, importante é não desistir.
E espero que as mudinhas resistam aos vândalos arrancadores de folhas
julho 9th, 2007 at 2:41 am
Pegou no ponto, Marcus. A maioria liga pra dizer que a árvore atrapalha na entrada do carro na garagem, ou pq as folhas que caem estão entupindo a calha.
Feedback: até agora as plantinhas estão todas no lugar, sem vandalismo, começando a crescer
Abraço
julho 11th, 2007 at 11:26 pm
[...] Earth "lavando a louça da mamãe" Tecnologiatonobohn “Todos querem salvar o mundo, mas ninguém quer lavara louça da mamãe“. Bem, alguns lavam [...]
outubro 12th, 2007 at 11:40 am
olá!!! meus parabéns pela iniciativa!!! realmente são poucos que se manifestam para fazer algo para mudar a nossa situação, embora já estejamos enfrentando os problemas climáticos causados pelo desmatamento e outros males que o homem realiza, ninguém disperta. Eu sou arquiteto e tento incorporar sempre métodos de sustentabilidade, e sei como é dificil as vezes convencer alguém para usá-los, mas um dia sei que ñ usarão mais os métodos de construção que abusam de materiais e do sistema sem se importar com as questões ecológicas. um forte abraço e continue, certamente trará um retorno.
outubro 15th, 2007 at 9:11 am
[...] “Todos querem salvar o mundo, mas ninguém quer lavar a louça da mamãe” [...]
junho 6th, 2008 at 12:00 am
[...] Não deixo a torneira da pia aberta enquanto escovo os dentes, não me alongo muito no banho, planto uma árvore aqui ou ali e durmo com a TV ligada (não dá pra ser perfeito, mas eu juro que coloco no Timer). Com tudo [...]
março 29th, 2009 at 4:33 pm
olha, concordo plenamente com o texto. So queria fazer uma alerta a quem monta sites em geral. ja fiz um monte de pergunta na internet de qual a arvore correta pra se plantar em calçada e a forma, se é no meio ou na ponta da calçada, mas não achei nenhuma resposta objetiva ensinando a plantar corretamente nas nossas ruas tão quentes do nosso país.
novembro 5th, 2009 at 2:24 pm
Poxa, é raro ver uma iniciativa como essa hoje em dia. O que me chamo a atenção nao foi o fato de ter plantado as mudas no meio ou no canto da calçada e sim pela ação de pouquisimas pessoas que correram atraz de um projeto e fazeram sua parte na luta contra o desmatamento.
Parabéns a vcs com essa bela iniciativa!